A época 2016/17 já começou, o FC
Porto já garantiu acesso à Liga dos Campeões, já perdeu o primeiro clássico e o
esboço de time já vai saindo. Mesmo assim, o tempo para uma análise reflexiva
para o que vem por aí só pode ser feito agora, com o fechamento da janela do
mercado de transferências. E o FCP revelou inúmeros pontos críticos de má
gestão. Mas trataremos disso depois.
Novo treinador, novas caras,
velhos problemas. Analisemos, portanto, por setor, as movimentações e como
fechou-se o plantel Dragão para a disputa da época.
Goleiros:
Casillas fora mantido e José Sá foi confirmado como opção imediata.
Esse, talvez, foi o setor que menos sofreu com as mexidas e mudanças de
transição entre a época anterior e essa. E aqui resultam algumas reflexões,
ainda assim.
José Sá fora promovido, para o posto de goleiro reserva. A
contratação da última janela de inverno já demonstrou potencial, durante a
pré-temporada e pode dar alguma segurança aos dragões quando lhe for solicitada
presença. Falta-lhe experiência, nunca cumpriu muitos jogos à titular no
primeiro escalão, mas reside aí um potencial a ser lapidado.
E é justamente nessa promoção que
reside a primeira demonstração de amadorismo da SAD portista: a “promoção” de
Sá se deu com a dispensa dos serviços de Hélton.
O goleiro brasileiro é um ídolo no Dragão e a afirmação de Nuno Espírito Santo
em não utilizar o guarda-redes que tinha mais de dez anos de casa inspira a
virada total de uma página na história do FC Porto.
Mesmo assim, com um verão todo
para resolver o que seria feito com a situação de Helton, nada além disso fora
feito. Helton foi profissional, afirmou que isso lhe custava, mas que queria
avançar com a rescisão do contrato. Mesmo assim, o atleta ainda consta com
vínculo ao FC Porto. O mais sensato, agora, é avançar com um posto técnico ou
diretivo no staff do clube. À se averiguar.
Outro ponto de situação é Raúl Gudiño. O guardião mexicano fora
muito mal emprestado a União da Madeira no último inverno, perdendo o status de
jogador formado no clube para as listas da Europa. Com seu talento, era
esperado que pudesse ser melhor utilizado no plantel na época atual, o que não
aconteceu. Ainda permanece como terceiro goleiro e opção imediata nos “Bês”.
Fabiano, Ricardo, Sinan Bolat e
Andrés Fernandez foram novamente emprestados.
Laterais:
Maxi Pereira permaneceu e isso era mais do que esperado. Mas foi a
única peça que não teve mexidas substanciais no setor.
Tudo bem, Layun permaneceu. Mas agora é um atleta vinculado e ativo direto dos
quadros do FC Porto. E foi uma aposta sensata, sobre aquele que foi um dos
poucos destaques na péssima época anterior. Layun é destro, pode jogar nas duas
laterais e pode ser fundamental como um motor na esquerda, além de repor muito
bem Maxi na direita (haja visto que o uruguaio teve uma paragem mais séria
depois de entrada criminosa de De Rossi, no playoff da Champions).
A grande novidade é Alex Telles, lateral esquerdo vindo do
Galatasaray, por pouco menos que €6 M. Alex Telles tem características diferentes
de Layun, bastante diferentes. É canhoto, busca mais as linhas de profundidade,
enquanto o mexicano é mais propenso ao jogo interior e infiltrações a meio da
intermediária. É jovem e tem bastante margem de evolução e valorização.
Alex Telles é uma boa aposta,
mas, valeu o investimento? O FC Porto possui uma situação financeira um tanto
delicada, atualmente. E já possuía em seus quadros Rafa, um projeto de lateral
dos mais promissores. Rafa, com a permanência de Layun, teria margem de
evolução, oportunidades para entrar e ganhar minutos enquanto jogador do FC
Porto em nível de primeiro escalão. Foi para o Rio Ave e já demonstra ser uma
aposta acertada. É um jogador para o futuro do FC Porto e merece todas as
atenções.
Outro jogador que merecia
melhores oportunidades é Victor García. O lateral direito entrou bastante bem
em alguns minutos na época passada e poderia ter mais chances alternativas à
Maxi. Foi para o Nacional, por empréstimo, e espera-se que venha a evoluir na
Choupana.
Zagueiros:
O setor central da defesa
portista foi a grande dor de cabeça da época passada. Era natural que houvesse
maior investimento nessa zona, durante o mercado de abertura da presente época.
Mas esperava-se mais. Muito mais.
Chegam Felipe (Corinthians) e Boly
(Sporting Braga). Ambos chegam por valores estimados em €6 M. Maicon fora mesmo
vendido ao São Paulo, por valor similar, e Bruno Martins Indi saiu, a muito
custo, por empréstimo ao Stoke City. Marcano,
em grande fase, permaneceu, enquanto esperava-se uma melhor solução para Chidozie, que acaba ficando como quarta
opção.
Vamos ao ponto central: gastou-se
12 milhões e não existe um xerife.
Não há um defesa que segure o touro pelos chifres. Felipe é muito bom na
recomposição defensiva e no jogo aéreo, Boly é bastante bom no alívio das
jogadas, mas nenhum dos dois possuem qualidades para comandar um miolo de
defesa. Tal qualidade também não está lá muito presente em Ivan Marcano.
Ainda não vimos Boly atuar de
Dragão ao peito, mas suas atuações no Braga demonstram: não é lá muito
habilidoso, mas há ali um tanque a aliviar momentos de pressão. Não chega.
Felipe demonstrou já altos e baixos: atuação soberba no Olímpico de Roma e
bastante lúcido em Alvalade, segurando Dzeko e Slimani, nos dois jogos,
respectivamente; bastante embaraço e poucas ações de sucesso na recepção aos
romanos no Dragão e na visita aos arcos em Rio Ave. Saberá segurar a pressão em
momentos cruciais? Esperamos que sim.
Marcano, bem, esse vem em boa
fase, mas já demonstrou deficiências na última época. E Chidozie sequer é um
jogador pronto, ainda. Além de Diego
Reyes, que figura entre os defesas mais caros da história do FC Porto e que
fora, outra vez, emprestado. Agora ao Espanyol, de Barcelona. O mexicano já
demonstrou qualidades na Real Sociedad e merecia melhores chances no Dragão.
Nesse setor, vimos movimentação.
Mas esperava-se mais.
Meias:
Este é o setor mais bem servido
do plantel. E que não precisa de muitas mudanças. Danilo Pereira é um tanque, um motor a defender e a construir na
primeira zona, a saída da defesa. Um jogador fundamental aos planos de Nuno
Espírito Santo. Herrera acabou por
permanecer, resta saber se por vontade ou incapacidade da SAD em valorizar o
ativo. É um “reforço”, jogador de muita intensidade, que se aproxima bastante
das zonas interiores do ataque e auxilia na construção defensiva.
André André necessita de melhor capacidade física, além de que NES
tenha visão: o jogador tem sido utilizado como um médio apoiador ao ataque, quase que como um “10”, longe do seu habitat natural. André rende muito mais a
jogar como “8”, um segundo apoiador a Danilo e Herrera, por ter mais capacidade
de passes e recomposição, longe da aptidão física para encarar defesas frente a
frente.
Ruben Neves continua a ser lapidado e merece mais oportunidades. É
incrível a capacidade do miúdo de dar fluidez e versatilidade na zona do meio
de campo. Merece e DEVE ser mais bem aproveitado. Cabe ao treinador ter essa
mesma visão.
Chegaram, ainda, Óliver Torres – que retorna ao clube
por mais um empréstimo – e João Teixeira, a custo zero. Óliver possui
capacidades comprovadas de Dragão ao peito e pode ser um enorme adendo de peso
ao grosso de opções de Nuno. Já João
Teixeira é uma opção muito bem oportunizada: o jogador é talentoso, jovem e
veio sem custos. Não existe qualquer pressão sobre essa transferência.
Com essas chegadas, porém, ficam
opções a sobrar: Sérgio Oliveira,
Evandro e Quintero. O primeiro deve ter oportunidades escassas, justamente
por ser o elo mais fraco do setor, além de ter feito péssimas aparições quando
foi chamado (as visitas ao Rio Ave e à Roma); Evandro é um coringa e nunca foi
novidade de que é uma clara opção de banco, para momentos pontuais; e Quintero
ficou por incapacidade da SAD.
A situação do colombiano merece
tópico próprio: um jogador de potencial e talento, sim, mas que esbarra numa falta de vontade absurdamente maior que
suas qualidades. Não é à toa que TODOS os treinadores com quem trabalhou o
elogiam na mesma proporção em que não o aproveitam. Qual seria a solução ideal?
A venda! O que fez a SAD? Renovou seu contrato até 2021 e não encontrou,
sequer, uma opção de empréstimo. Temos, agora, um ativo caro e encostado.
Situação urgente a ser resolvida (o México aparece como salvação, à se
averiguar).
Extremos:
Brahimi, Otávio, Corona, Diogo
Jota e Varela. Temos cinco opções para as pontas, sendo quatro delas de enorme
qualidade.
Corona mantém-se como dono da direita. Está a demonstrar evolução e
já é aparente que os apagões bastante
recorrentes na última época são cada vez mais escassos. A jogar com Otávio, demonstrou bastante fluidez e
versatilidade, trocando várias vezes de lado com o brasileiro e embaralhando as
defesas adversárias.
Otávio esse que foi um “reforço”.
Clara evolução no empréstimo ao Vitória de Guimarães e agarrar logo a posição
de titular. Além da boa trama com Corona, demonstrou, acima de tudo, um enorme
entendimento com André Silva. Um ótimo prospecto para a época. Se vai manter o
mesmo ritmo ao longo dela? É o que esperamos.
Varela permaneceu muito pela história que tem no Dragão. Vai ser
uma boa opção, quando necessário, mas não esperemos vê-lo muito em campo. Diogo Jota foi uma ótima aposta, que só
peca por ser tardia (devia ter sido investido enquanto ainda era jogador
pacense, não com um empréstimo ao Atlético de Madrid). Será uma ótima opção
para Nuno Espírito Santo e que pode trazer soluções aos jogos mais amarrados.
O melhor “reforço” no setor,
porém, foi... Brahimi. A má gestão
da SAD com o seu caso merece post próprio e que pretendemos fazer, mas cabem já
aqui comentários. Slimani já estava vendido ao Leicester, mas enfrentou o
Porto. Adrien Silva era dúvida e também jogou. O que isso tem a ver? O
Sporting, ora, aproveitou os seus ativos enquanto eles ainda lá estavam. Algo
que o Porto deveria fazer com Brahimi enquanto não se resolvia sua situação.
Brahimi é um jogador habilidoso,
capaz de criar boas situações de jogo. Segura bastante a bola com seus rodeios
e rotundas, mas, ainda assim, é um homem de enormes capacidades. Não
utiliza-lo, mesmo que não contasse para a época, foi um enorme desperdício de
talento.
Slimani marcou o primeiro gol do
Sporting e esteve envolvido na jogada do segundo. E já estava vendido. Brahimi não
poderia ser uma boa mexida no jogo, quando o FC Porto passou o segundo tempo
todo embaralhado e sem criar situações de perigo a Rui Patrício?
Depois, sua venda não se
concretizou. Desperdiçamos dinheiro e potencial. Uma lição que a SAD, que tem
lá seus muitos anos à frente do clube, já deveria saber de cor e salteado.
Faltou tato, sobrou amadorismo.
Agora Brahimi é opção. E deve ser aproveitado. Com trabalho, para
reintegrar-se ao plantel e adquirir ritmo, larga atrás na disputa por posição.
Mas pode ser uma enorme valia para a época, ao menos até janeiro. Que NES tenha
tato para tratar do jogador.
Atacantes:
O setor que mais mudou e que era,
ao mesmo tempo, uma preocupação e que continha um certo alívio. Contraditório?
Sim. Mas podemos explicar.
Aboubakar, Suk e Marega, juntos,
não davam meio Jackson Martinez. Era preciso reformular, e os três citados
saíram. Mas dessa deficiência surgiu André
Silva. Temos um avançado completo e que apresenta um belo norte evolutivo.
André Silva é artilheiro, com
ótima mobilidade, cai muito bem pelas pontas e sabe vir buscar o jogo. É um
jogador fundamental em cumprir desmarcações e criar desequilíbrios na defesa
adversária. Ainda peca nos duelos 1x1, mas pode aprender. Tem tempo para isso.
O problema surge ao pensarmos que André Silva não possui reservas, mas
substitutos – o que são coisas completamente diferentes.
Não há nenhum reserva imediato,
com as mesmas funções e características que nosso melhor atacante. Adrian Lopez, reintegrado ao elenco
após empréstimo, cumpre melhor a função de segundo atacante, um homem mais
recuado, que auxilia na definição da jogada, mas não é um definidor em si.
Pior fica se olharmos para Depoitre. Contratado ao Gent, o
grandalhão belga é completamente diferente, e pode ser utilizado para outras
ocasiões. É o famoso pirulão, grande, forte, que está plantado na área para
cabecear, para dar o último toque. Pode servir para momentos de abafa e jogar ao lado de André Silva, mas não como ele.
Nuno Espírito Santo terá trabalho
para montar esta equipe. Existem muitas peças para se encaixar e um sistema de
jogo a ser imposto. Algumas dessas peças passam longe do ideal, enquanto é
preciso se adequar ao que se tem, pelo menos até janeiro. O importante é que
apoiaremos Nuno e suas escolhas enquanto este apoiar o FC Porto. Que os
interesses de todos os envolvidos seja o interesse comum da vitória. E que esta
seja a época em que voltamos a vencer. Força, Porto!

